domingo, 2 de junho de 2013

Os fracassos


Bom, fui demitida mais uma vez e, apesar de estar fazendo um freela, ainda está doendo.
Minha primeira demissão foi em 2001 ou 2002, não me lembro bem, quando eu era “estagiária” da Ace Assessoria de Comunicação (aspas porque eu estava longe de ser estagiária. Trabalhava o dia todo, ia a todas as pautas com o meu carro, era bem legal). Eu não podia ser demitida de jeito nenhum na época porque lá em casa estávamos passando por uma crise horrorosa e qualquer real era mais que apreciado. Não me lembro bem porque eu fui demitida, era algo como falta de brilho no olho (eu viria a ouvir isso outras inúmeras vezes) com falta de comprometimento e eu rodei. Foi bem ruim, dei a notícia em casa e meu pai chorou junto comigo, corri atrás feito doida de outro estágio/qualquer outra forma de renda enquanto, na paralela, fui vendendo revista velha na cia de reciclagem (prá ganhar menos de 10 reais), o computador velho (prá ganhar 50 reais), enfim, tempos dos quais não sinto a menor saudade. Era voltar prá casa e ter uma surpresa: uma dívida nova que chegou, a luz que foi cortada, a preocupação perene do meu pai cometer suicídio.
Um ano se passou, mais um pouco, acho, e fui demitida do outro estágio. Aí era porque eu estava me formando e as sócias decidiram não efetivar nem a mim nem a Elaine, a outra estagiária. A gente dava o couro por lá. Eu não liguei muito porque eu tinha um outro estágio junto, na Globo, era ano de formatura e eu não via a hora de ir embora de Juiz de Fora. Claro que o dinheiro fez falta, mais uma vez, mas não me desesperei que nem da outra.
Aí anos se passam, eu já tava me achando uma profissional competente, eu já estava em São Paulo quando a terceira demissão acontece. Essa foi perfeitamente compreensível, só o acordo financeiro que não. Eu estava super relapsa no trabalho, não conseguia ir, estava passando por um turbilhão na minha vida: morte do meu pai que me tirou completamente do eixo, pé na bunda que não curava, eu acordava e não queria sair da cama... meu chefe aguentou foi muito. O ruim é que ele foi meio sovina e só me pagou pelos dias trabalhados naquele mês, não tive acordo nem contrapartida financeira alguma. Minha sorte foi que 2 semanas depois consegui outro emprego.
Dois anos se passaram, eu estava bem lá na firma, até que o monstro da depressão se apossou de mim mais uma vez e, para não acontecer que nem da outra, avisei ao meu chefe e à minha subordinada. Pior erro da minha vida. Colocaram outra pessoa no meu lugar, desequilibradíssima e que ficava se comparando a mim (eu era só deprê, essa pessoa era incapaz diagnosticada, fazia merda atrás de merda e ninguém via). Eu fiz uma cagada também, que manchou minha reputação, aí tudo que eu fazia eu era monitorada, julgada, achincalhada, até que essa pessoa conseguiu me demitir. Um mês depois, ele também foi demitido. Fiquei mal por duas vezes: por todos terem deixado eu ser demitida, ninguém ter me defendido (vítima, sempre), e por ele ter sido demitido tão pouco tempo depois.
Cinco meses de aperto, consegui um emprego fixo de novo quando me chamam da firma antiga de novo, para fazer um job internacional mais uma vez. Nem pensei duas vezes: pedi demissão, peguei minha única mala e fui pro Rio. Prá mostrar o quanto eles estavam errados, virei muito caxiona: peguei um outro job gigante, trabalhava que nem uma louca, ia acumulando funções e não deixando a peteca cair. Resolvia vários pepinos durante o dia e ia embora com uma sensação ótima, de que eu era boa profissional, que eu conseguia pensar em tudo... e quem me conhece um pouquinho sabe que nunca sinto essa auto-satisfação. Enfim... eu devia saber que algo de ruim estava por vir,  porque comigo nunca tem almoço grátis mesmo e sempre vem uma merda quando estou em paz. Pois foi isso que aconteceu: por conta de um email que eu passei de maneira super precipitada, fui demitida. Pela quinta vez. E doeu muito.
Doeu porque de novo foi na firma onde minha fama não estava muito boa e eu estava fazendo de tudo para apagar qualquer resquício de suspeita. Doeu porque foi para o cliente que eu mais gostava de trabalhar, que tem os melhores projetos e para o qual eu fiz o melhor trabalho da minha vida. Doeu porque estou longe da minha casa. E doeu, acima de tudo, porque agora não tenho mais rede de segurança, não tenho dinheiro, preciso achar outro emprego fixo para ontem e não tenho a menor perspectiva. Não faço idéia de onde procurar, para que lado me mexer. Estou me sentindo péssima, mais uma vez, angustiada, deprimida, a pior pessoa do mundo. Eu só queria conseguir dar certo, ser uma pessoa convencional, cartesiana, com emprego, férias, fazer as coisas que eu gosto. E nada disso acontece. Fico emperrada, sempre, tudo sempre dá muito errado comigo, prá mim. E não culpo ninguém: eu sou a responsável pelo que acontece na minha vida. Eu culpo a mim, à minha total incapacidade de lidar com a vida, com o dia-a-dia, de me posicionar, de ser alguém.
Não sei o que fazer, mais uma vez. Só tenho mais certeza, a cada dia que passa, que sou um completo desperdício de gás-carbônico. Não sei mesmo qual é meu propósito aqui.
Odiar a você mesmo é o que há de mais cansativo. Te tira todas as suas forças e te faz ser um caco de ser humano.
E eu me odeio muito.

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